Um aparente estado de paz, que fez esquecer todo o horror vivido tempos atrás.

Agora já faz anos desde a retomada das favelas. Um sucesso, disseram os mentores do programa. A paz voltou, tudo mudou.

Mas os expurgados mostraram que não fazem parte do passado. O medo desceu a ladeira e trancou portas, fechou janelas, escondeu a tranquilidade.

O retorno do medo

Publicado: 01/12/2010 em Uncategorized

A sombra do medo se aproximou novamente ao ligarmos nossas TV’s e descobrirmos que os bandidos escaparam. Mais uma vez a tensão toma conta do cidadão de bem.

Túneis e galerias inacabados, sujos com o esgoto da favela, serviram de saída de emergência para os ratos que abandonaram o navio. O que se podia esperar de quem, por décadas, agiu com covardia?

Enquanto isso, a cidade se esforça para recuperar seu ritmo normal. O trânsito voltou a ficar complicado, os ônibus lotados parando em todos os pontos. É bem verdade que os ataques à população do asfalto diminuíram. Talvez a ação policial não tenha sido de todo em vão. O tráfico parece estar enfraquecido e cada vez mais jovens abandonam as fileiras da marginalidade.

Mas a tensão voltou a pesar sobre nossos ombros e o hálito gélido do medo está soprando novamente em nossa nuca.

Calor

Publicado: 30/11/2010 em Uncategorized

É impressionante como o calor deixa o ritmo das coisas mais lento. Até os ponteiros do relógio parecem andar mais devagar com medo de suar. No mesmo ritmo que as pessoas na calçada, as notícias sobre a guerra começam a sair de pauta.

A impressão que fica é a de que jornais e TV’s saturaram o público com um bombardeio incessante de informações. Ninguém parece estar muito a fim de ler uma linha sequer sobre o assunto. E quando algum jornalista invade a telinha, pronto para tocar no assunto, o controle remoto é rapidamente acionado.

O fato é que nada se resolveu. Pelo menos ainda. Uma tensão sutil domina a cidade, como uma sombra que te acompanha à distância, mas que você não despista porque está quente demais para apressar o passo.

Trânsito livre

Publicado: 30/11/2010 em Uncategorized

Hoje o trânsito ainda estava bom. Poucos são os que se arriscam a sair de casa em seus carros. Embora os incidentes tenham diminuído, as pessoas preferiram usar o transporte público. O meio-ambiente agradece.

Metrôs lotados, ônibus mais ainda. Esperar pela condução foi um teste de paciência: ou parava com gente saindo pelo ladrão ou o motorista nem tomava conhecimento do ponto. Compreensível, afinal, empresa nenhuma quer ver seu patrimônio depredado.

Vitória

Publicado: 29/11/2010 em Uncategorized

Uma hora. Este foi o tempo que a força policial levou para atingir o foco do problema. Os homens na TV dizem que a guerra foi vencida, sem maiores esforços. O banho de sangue esperado não aconteceu.

O inimigo não ofereceu resistência, se escondeu como animais assustados ou fugiu como baratas no esgoto. Muitos foram capturados, mas mesmo assim são poucos em relação ao número estimado de seu contingente.

A invasão foi tranquila. Tranquila demais. Resta ao povo esperar que não seja mais uma calmaria antes da tempestade.

Sinais de esperança

Publicado: 27/11/2010 em Uncategorized

O dia amanheceu nublado, mas as nuvens foram se dissipando aos poucos. O céu azul voltou a tomar conta do firmamento. Seria um sinal de que a situação está para melhorar?

Estamos agora em um ponto onde não há mais volta. E as autoridades têm essa noção, tanto que agem de uma forma nunca antes vista. Os responsáveis por tanto caos e terror parecem ratos acuados. O desespero que tomou de assalto a população contagiou também quem se esforçou para espalhá-lo.

Pela primeira vez as pessoas desta cidade abandonada sentem que sua história está para mudar. Elas já saem na rua, timidamente, exibindo sorrisos um tanto desajeitados: sorrir não era uma prática comum, pelo menos o sorriso sincero e aliviado não. Demonstrações de confiança e solidariedade começam a aparecer, depois de anos esquecidas.

Há sinais de mudança. Se eles chegarão a se concretizar, só o tempo dirá. No entanto, a maior vitória já foi conquisada: a esperança voltou ao peito dos cidadãos de bem.

Vazio

Publicado: 26/11/2010 em Uncategorized

A cidade está um caos. Os homens na TV dizem que não há razão para pânico e que tudo está sob controle, mas não é isso que se vê nas ruas.

As pessoas de bem estão silenciosas, a tensão pesando sobre seus ombros. O medo paira no ar, denso, sufocante. A vontade de gritar é abafada por séculos de submissão. Por que agora ia ser diferente? Por que justo agora, quando a violência impera, vamos sair de nossa posição de conforto?

É, não vai ser hoje. Mas se não for, quando será?